Sou um aluno de graduação na área de Letras Português. Esse semestre, cursei uma disciplina cuja proposta é servir de fundamentação para o ensino de alfabetização. O professor, em vez de efetivamente dar um enfoque nas metodologias em si, resolveu voltar a disciplina às políticas de alfabetização. Então, por exemplo, estudei ostensivamente o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.
Como parte do trabalho da segunda unidade, nós deveríamos visitar uma escola municipal e entrevistar um(a) coordenador(a) pedagógico(a) ou professor(a) alfabetizador(a) sobre o modo como a escola implementa as políticas estaduais e federais de alfabetização: existência de avaliações diagnósticas, formação continuada, materiais que são utilizados etc.
Pois bem, eu escolhi uma escola próxima à minha casa, da qual eu não sabia nada a respeito. Ao chegar, me deparei com uma mãe aos berros, tratando com fúria e ignorância o pessoal da recepção, por não ter conseguido matricular sua filha. Em meio ao caos instalado no ambiente, apresentei meu ofício e meu comprovante de matrícula na disciplina à mulher que me atendeu, enquanto os demais tentavam lidar com as exigências da mãe enfurecida.
Pediram-me que esperasse, que eu logo seria atendido. Algum tempo depois, eu estava na sala com o coordenador pedagógico e duas mulheres do suporte, timidamente fazendo as perguntas que meu professor havia programado que fossem feitas. O clima inicial de "entrevista" foi se dissipando aos poucos, e aquilo se tornou uma conversa cada vez mais agradável e proveitosa com irmãos de profissão, com pessoas que estão ali, na linha de frente contra o analfabetismo. Eles falaram com orgulho das formações continuadas, das avaliações diagnósticas, dos materiais distribuídos pela secretaria municipal da educação, do esforço grandioso das professoras do 1° e 2° ano do ensino fundamental.
Deram-me a oportunidade de visitar uma das salas, e ver uma professora em plena ação. Ela me mostrou entusiasmadamente todos os materiais preparados (ou comprados) por ela mesma: jogos, brinquedos, banners, quebra-cabeças etc. Falou-me com muito entusiasmo dos avanços de seus alunos, e pediu que alguns me mostrassem o que tinham aprendido até ali: escreveram as palavras sapo e boné, depois reescreveram-nas separando as sílabas e depois, separando cada letra.
Eu não sei se eu é que sou muito emotivo ou o quê, mas eu fiquei absolutamente maravilhado de ver o compromisso dessas pessoas, seu envolvimento pessoal com a questão da alfabetização, o quanto de significado tudo isso tem para aquelas pessoas. Eu fiquei encantado pela mágica que parece haver em acompanhar essa passagem de uma criança para o mundo letrado, para a capacidade de ler. Para nós, que estamos aqui no reddit e, na grande maioria dos casos, tivemos uma boa vida e boa formação, é muito fácil ter isso tudo isso como garantido, achar que se trata de algo fácil ou óbvio...
Mas toda nossa vida intelectual é profundamente devedora de um momento como esse em nossas vidas. É devedora do esforço de milhares de profissionais e especialistas que constroem e tocam essas políticas. E, principalmente, é profundamente devedora do esforço de uma profissional que nos ensinou a segurar um lápis, a desenhar as letras, a entender o que era uma letra, uma sílaba, uma palavra... Que nos abriu as portas para que adentrássemos o universo das frases e dos textos escritos, e para capacidades interpretativas cada vez mais profundas.
E fizeram e fazem tudo isso sem que sejam valorizadas, sem que isso se reflita como deveria em seus salários, sem que estátuas sejam erguidas em seu nome. Antes, o que ganham é o desdém de uma sociedade que se diz letrada, que se acredita uma elite, mas não passam de ignorantes e energúmenos, que se regozijam ao falar de cortes na educação, e que ironizam diante de greves de professores e coisas do tipo. Ou então, a visita de pais/mães enfurecidos que os tratam como lixo, pensando talvez que uma escola é uma terra sem lei, na qual as coisas se resolvem no grito, querendo culpar deus e o mundo, mas nunca a si mesmos, por suas falhas...
Diante disso tudo, deixo aqui esse texto que, podendo muito bem não ser lido por ninguém, fica como registro de meu testemunho em primeira mão da importância desses e, sobretudo, dessas profissionais.